Para quando morrer
"Estamos aqui
na 106,5, a Rádio que..."
(Tiros e tiros e tiros ecoaram pela sala).
Meu tio, que é um homem que
dorme em qualquer lugar
e acorda dizendo qualquer coisa aleatória,
perguntou: "ô Glória, é São Jorge?".
Logo improvisou-se o cortejo.
No Rio, se alguém morre de tiro,
logo as pessoas o homenageiam,
os bares se lotam.
Pode até ser invasivo, mas
sempre que eu pensei em ser morto
me confortou saber que ao estaria sozinho.
Mas em Belém, quando uma pessoa morre no fim Travessa Vileta,
mesmo de velha
ou de algo que não chegou ao médico a tempo de ser uma doença,
seu corpo é velado no quintal de casa
e as pessoas vão para o enterro naqueles ônibus
de excursão em que íamos para os retiros da igreja.
Ainda outro dia,
quando cheguei em casa,
Seu Daniel, meu locador (que, além de idoso,
tinha nome de novo e
às vezes peidava alto conversando na calçada
e, disfarçando, admoestava o vento:
"opa, o que é isso, rapaz?!")
gritou: "boa tarde, meu rapaz!"
"Boa tarde! Tudo bem, Seu Daniel?"
"Tudo! Minha sogra morreu!
Entra aí, quer um cafezinho?"
na 106,5, a Rádio que..."
(Tiros e tiros e tiros ecoaram pela sala).
Meu tio, que é um homem que
dorme em qualquer lugar
e acorda dizendo qualquer coisa aleatória,
perguntou: "ô Glória, é São Jorge?".
Logo improvisou-se o cortejo.
No Rio, se alguém morre de tiro,
logo as pessoas o homenageiam,
os bares se lotam.
Pode até ser invasivo, mas
sempre que eu pensei em ser morto
me confortou saber que ao estaria sozinho.
Mas em Belém, quando uma pessoa morre no fim Travessa Vileta,
mesmo de velha
ou de algo que não chegou ao médico a tempo de ser uma doença,
seu corpo é velado no quintal de casa
e as pessoas vão para o enterro naqueles ônibus
de excursão em que íamos para os retiros da igreja.
Ainda outro dia,
quando cheguei em casa,
Seu Daniel, meu locador (que, além de idoso,
tinha nome de novo e
às vezes peidava alto conversando na calçada
e, disfarçando, admoestava o vento:
"opa, o que é isso, rapaz?!")
gritou: "boa tarde, meu rapaz!"
"Boa tarde! Tudo bem, Seu Daniel?"
"Tudo! Minha sogra morreu!
Entra aí, quer um cafezinho?"
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