Das curvas que aprendi
Era terça-feira de carnaval.
Os bares da Lapa vomitavam gente suada
- e competentemente equipada com latões azuis de Antártica -
na calçada.
No metrô,
- instrumento de trabalho profanado por uma estranha alegria -
não havia resquício do asséptico e silencioso toque cotidiano:
aqueles corpos que se desnudam ao contato.
Até mesmo o homem negro e gordo, vestido de mulher,
(Meow, meow, meow, o gato mião me interrompe)
contava piadas. Todos participavam, sem vírgulas.
Descemos em um Rio que parecia antigo.
Lembro dele quando escuto Chico Buarque na TV da sala.
Seguimos para a Praça Mauá
(Carolina, os seus olhos fundos guardam toda a dor, toda a dor do mundo - cantei errado
enquanto descia a Presidente Vargas bebendo cerveja quente,
olhando para as coxas de Janaína).
Nunca mais vi Carolina.
Nem Janaína.
Mas enquanto os confetes e as bolas desciam,
colorindo o céu,
e o Diabo sambava em cima de pernas de pau,
cantei: "Pequena África, desci no Cais do Valongo/fiz o caminho mais longo/
em busca da felicidade/vejo a dor gritar e ecoar na Camerino/Mas meus olhos de menino
não esquecem a vontade/de ver o mar e avistar algum navio a disparar sobre o meu Rio/
mil canhões de alegria/no olhar..."
E esqueci.
A letra, Carolina, Janaína,
a vida.
Vivi imerso o palco repleto e vazio
que tantas vezes tentei reconstruir
para vê-la.
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